Crítica – Um Completo Desconhecido
Ainda que tenhamos revisitado recentemente várias trajetórias de ícones da música, poucas foram as vezes que uma produção representou tão bem os desafios, os dessabores e a genialidade de um artista.
Em Um Completo Desconhecido, o diretor James Mangold mergulha na vida de um dos artistas mais enigmáticos e revolucionários do século XX, Bob Dylan. Procurando evitar as convenções de cinebiografias tradicionais, Mangold entrega um filme que busca muito mais capturar a essência artística e a evolução da identidade musical do artista, mas sem nunca desmistificar demais a figura do ícone.
Situado no efervescente cenário musical da Nova York dos anos 1960, a produção acompanha a escalada ao sucesso de Robert Zimmerman (Timothée Chalamet), que, inspirado por seu ídolo Woody Guthrie (Scoot McNairy), adota o nome de Bob Dylan. Inicialmente fiel ao folk tradicional, o longa nos apresenta a desafios pessoais e profissionais na vida do artista, com direito a relacionamentos conturbados e a natural resistência de músicos mais conservadores.

Dono de uma narrativa cuidadosa e técnica, que reforça a identidade do próprio folk. O longa constrói uma abordagem totalmente diferente de outro trabalho do diretor, Johnny e June (2005), onde a cinebiografia de Johnny Cash era marcada por um tom frenético e um tanto mais visceral. Já em Um Completo Desconhecido, o cineasta prefere adotar uma atmosfera mais introspectiva e poética. E a escolha não poderia ser mais acertada, já que também reflete a própria personalidade de Dylan, um artista, acima de tudo, complexo.
Um dos pontos altos do filme reside em sua meticulosa direção de arte, que detalha ambientes, instrumentos e reconstrói com autenticidade a época retratada, cada detalhe que contribui para uma imersão completa do espectador.
A produção também se destaca notoriamente por suas incríveis atuações, com Timothée Chalamet entregando uma performance mais do que convincente, carregadas de nuances que captam não apenas a timidez e o mistério, característicos do músico, mas também sua ousadia e, principalmente, resistência às expectativas impostas. A atuação que rendeu uma indicação ao Oscar, não acontece por acaso, já que o jovem ator acabou por dedicar cinco anos de sua vida à preparação para este papel.
Um Completo Desconhecido se mostra muito mais do que uma simples cinebiografia, com uma direção sensível e um trabalho de produção impecável, James Mangold entrega um filme que respeita toda a complexidade de Bob Dylan, sua música e principalmente o impacto duradouro do cantor em suas constantes reinvenção artística. Certamente uma obra essencial para todo fã de Dylan e do folk.