Crítica – Queer
Provavelmente todos nós, ou pelo menos quase, já passamos por uma história de amor densa, pesada e completamente destrutiva. Daquelas em que abrimos mão do nosso “eu”, apenas para viver uma paixão idealizada, e fazemos questão de viver isso a todo custo. É exatamente um retrato assim que, Queer, novo filme de Luca Guadagnino, traz aos cinemas.
Baseado em um romance homônimo, de Willian S. Burroughs, acompanhamos a história de um expatriado americano rejeitado, Lee (Daniel Craig), que se apaixona perdidamente pelo muito mais jovem, e enigmático, Eugene (Drew Starkey). A história de amor, que se inicia no ato físico, ou carnal, transcende logo para um sentimento intangível, grandioso e, é claro, por vezes, unilateral.
Definitivamente a beleza da produção reside na elegante construção de uma história de amor. Cada olhar, cada gesto e cada decisão afobada, típica de uma paixão avassaladora, ganha uma atenção especial na direção. Que ainda encontra tempo para traduzir com poesia, em sobreposições literais, o embate entre o desejo do carinho e do beijo, e a dura realidade de uma distância segura e repleta de dúvidas.
O mise en scene, criado por Guadagnino, vaga entre o pop e o lúdico de maneira certeira. Visualmente o filme salto aos olhos, em um cenário onde cada detalhe importa e conta uma história.

Verdade seja dita, é inegável que grande parte do sucesso cativante do longa passa notoriamente pela escolha de seu elenco. Ainda que este esteja longe de ser o filme do ano, certamente a atuação de Daniel Craig está entre as melhores. O ator veterano, se entrega à um personagem que orbita entre uma figura firme e cheia de apetite sexual, que se desmonta pouco a pouco quando confrontado por uma grande paixão, e o medo de uma iminente rejeição. Do outro lado, Starkey, entrega uma figura enigmática, um jovem de aparência perfeita, com ares de “inalcançável”.
Fatalmente o filme perde folego apenas quando o ritmo pop, característico do diretor, precisa pisar no freio para dar lugar a um texto que explora um lado mais metafórico e lúdico da história. A virada do segundo para o terceiro ato, sofre um pouco com a quebra e uma cadência que vinha dando certo. Mas nada que tire o brilho do longa.
Distante de ser simplista, Queer, propõe uma discussão sobre o amor, o sexo e a entrega. Onde mesmo que a desilusão possa existir, ainda vale a pena viver o sentimento.