Crítica – O Brutalista
Se tudo o que um artista tem para sua arte são suas referências de vida, e toda sua vida se resume a uma experiência traumática de desumanização, como sua arte retrataria isso? Como as pessoas seriam impactadas pela sua arte?
Muito embora Hollywood costume retratar, vítimas da Segunda Guerra Mundial buscando abrigo nos Estados Unidos, em O Brutalista, o diretor Brady Corbet subverte a narrativa usual, ao abordar uma realidade nua e crua enfrentada pelos recém-chegados. Longe de romantizar uma pretensa ascensão social na dita “terra das oportunidades”, o longa expõe dificuldades, conflitos identitários e barreiras culturais que moldam, e por vezes seguem desumanizando, o imigrante no chamado sonho americano.
Ambientado a partir do final da década de 1940, a história acompanha a jornada do arquiteto visionário László Toth (Adrien Brody). Fugindo da Europa devastada pela Segunda Guerra Mundial, László busca reconstruir sua vida e reatar os laços com sua esposa, Erzsébet (Felicity Jones), após a separação causada pela guerra. Ao se estabelecer na Pensilvânia, ele desperta o interesse do poderoso, e rico, Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce), que enxerga na arte do arquiteto uma oportunidade de elevar seu status social. No entanto, o sucesso vem acompanhado de um preço alto, levando László a enfrentar dilemas morais e pessoais em sua busca por reconhecimento e principalmente, pertencimento.
Um dos aspectos mais marcantes do longa, está na forma como a arquitetura se torna, nas mãos do diretor, uma expressão metafórica para o que vemos em tela. A estética “brutalista”, caracterizada pelo uso de concreto aparente e formas geométricas pesadas e imponentes, reflete diretamente a rigidez e a brutalidade do mundo em que László vive, deixando claro como experiências traumáticas afetam o trabalho do artista, e como sua obra afeta o mundo.

O embate entre os personagens de Brody e Pearce, propõe um olhar sobre a relação tensa entre arte e poder. Enquanto para um, a obra serve como uma expressão de significado e propósito, o outro, a vê apenas como mais um símbolo de status. Em um primeiro momento, Van Buren ignora a biblioteca projetada por László, e passa a valorizá-la apenas após seu reconhecimento em uma revista especializada. Para uma elite hipócrita, a arte serve apenas quando transformada em produto, e nada mais.
Dono de uma narrativa dividida em capítulos, distribuída em uma duração de 3 horas e 36 minutos, O Brutalista se destaca pela direção preciosa de Brady Corbet, que sabe como manter o interesse do expectador no filme sem tornar a experiência cansativa. Mas peca em uma conclusão pouco inspirada e um tanto explicativa demais. No entanto, o amior destaque da produção, sem dúvida, está no desempenho do elenco principal. Adrien Brody entrega uma atuação intensa, enquanto Felicity Jones e Guy Pearce enriquecem a trama com performances impactantes.
Ao desconstruir o mito do sonho americano e, principalmente explorar as complexidades da identidade e da arte, O Brutalista se firma como uma grande produção que merece, e precisa, ser visto e debatido.