Crítica – Conclave
Conclave, filme dirigido por Edward Berger, que adapta o livro homônimo de Robert Harris, transforma o aparentemente monótono e intrigante ritual do Conclave Papal em um thriller intenso e instigante.
Conhecido por seu trabalho, ganhador do Oscar, em Nada de Novo no Front (2023), Berger mais uma vez mostra sua fascinante habilidade em construir uma atmosfera densa, sabendo exatamente como explorar os bastidores da eleição de um novo Papa. Com o elenco encabeçado por um inspirado Ralph Fiennes, o filme orbita entre tensões políticas e religiosas, rasgando críticas nada sutis ao latente conservadorismo da Igreja Católica.
Na trama acompanhamos o Cardeal Thomas Lawrence (Ralph Fiennes), Decano do Vaticano, responsável por organizar o Conclave após a morte súbita do Papa. Quatro candidatos se destacam na corrida pelo papado: o progressista, e amigo pessoal de Lawreance, Cardeal Bellini (Stanley Tucci), o conservador Cardeal Tedesco (Sergio Castellitto), o moderado Cardeal Tremblay (John Lithgow) e o africano Cardeal Adeyemi (Lucian Msamati). Como era de se esperar, intrigas, revelações do passado e alianças inesperadas emergem à medida que o processo avança. A chegada surpresa do misterioso Cardeal Benítez (Carlos Diehz), mantido em segredo até o momento pelo próprio Papa, adiciona camadas e mais camadas de mistério e tensão à produção.

Berger opta por centralizar a narrativa, e por consequência apresentar os fatos, pelo olhar de Thomas Lawrence, constantemente explorando suas dúvidas, ideais e postura serena diante de um ambiente repleto de conflitos. Ironicamente, o Cardeal mais apto para assumir a função e aquele que rejeita o cargo com mais veemência. Ralph Fiennes entrega definitivamente uma performance profunda, destacando-se como o pilar emocional e moral do longa.
Muito embora o filme seja bem-sucedido em manter um ritmo que cadencia a tensão, alguns elementos narrativos parecem soar como embrolhos desnecessários, servindo apenas para esticar a trama. Eventos externos ao Vaticano, embora relevantes para o enredo, poderiam ter sido resolvidos mais rapidamente para manter a trama mais coesa. Além disso, a introdução do Cardeal Benítez e sua grande revelação final, mais uma vez, soam previsíveis para espectadores mais atentos, comprometendo um pouco o impacto. É impossível não imaginar que a presença do personagem, funciona muito mais como um artifício para provocar discussões no pós-filme, do que como um elemento orgânico da história.
Apesar de algumas escolhas questionáveis, em termos narrativos, Conclave, consegue se estabelecer como um thriller cativante que transforma um ritual cercado por mistérios, em uma história moderna repleta de intrigas e críticas sociais.